HARVARD´S HEALTHY EATING PLATE
A epidemia da obesidade tem sido amplamente reconhecida
como um dos principais problemas de saúde pública, sendo referida como
“globesidade” pela OMS, em razão da sua disseminação pelo mundo. Segundo a
Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) 2008-2009, o número de homens brasileiros
adultos com excesso de peso ultrapassou 50% da população; entre as mulheres,
esse número chega a 48%1,2.
A ”epidemia da obesidade”, suportada por um
ambiente “obesogênico”, com grande oferta de alimentos calóricos e gordurosos,
está diretamente envolvida na patogênese de doenças crônicas não transmissíveis,
como o diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemia, aterosclerose, algumas formas
de câncer, entre outros, aumentando as chances de morte prematura e/ou
diminuição da qualidade de vida3,4.
No intuito de melhorar a qualidade
de vida da população e prevenir possíveis agravos à saúde através da
alimentação, surgem as recomendações dietéticas. O foco das mesmas são a
promoção da saúde, a redução do risco de doenças e do sobrepeso/obesidade
através da melhora da qualidade nutricional dos alimentos consumidos e do
aumento na atividade física diária dos indivíduos5.
Nesse sentido,
pesquisadores da escola de saúde pública da Universidade de Harvard criaram uma
nova proposta (Healthy Eating Plate) que oferece recomendações mais específicas,
aprofundadas e mais precisas para uma dieta saudável, quando comparada com a
proposta “MyPlate”, desenvolvida pelos departamentos americanos de agricultura e
saúde. A nova proposta de Harvard é baseada em dados nutricionais atuais e não
sofre influência da indústria alimentícia ou de políticas de agricultura e tem o
objetivo básico de promover qualidade nutricional à alimentação diária, por meio
da indução a escolhas saudáveis6.
A proposta apresenta a figura de um
prato (semelhante à utilizada no programa “MyPlate”) que está dividido em
quatros partes de diferentes tamanhos, com orientações gerais quanto a melhores
escolhas nutricionais – conforme demonstrado na figura 1. Ainda, há a indicação
da prática de atividade física, representada pelo “Stay Active!” no programa de
Harvard6. Vale destacar que essa representação gráfica sugere proporções
relativas entre os diferentes grupos alimentares, mas sem considerar quantidades
específicas de calorias.
De uma forma geral, as novas recomendações
pretendem que os consumidores possam fazer escolhas saudáveis, escolhendo grãos
integrais, fontes proteicas saudáveis e óleos saudáveis e bebendo água e outras
bebidas não adoçadas. Por outro lado, sugere um consumo limitado de grãos
refinados, batatas, doces, bebidas açucaradas, carne vermelha, carnes
processadas e uma moderação na ingestão de leite e sucos.
Importante
destacar ainda que essa proposta não estabelece o valor calórico diário e
tampouco o número de porções diárias de cada alimento, já que as necessidades
nutricionais são individuais e variam com base na idade, gênero, composição
corporal e nível de atividade física, não se esquecendo de se considerar as
preferências alimentares individuais.
Figura 1. Representação gráfica da
nova proposta de guia alimentar da Universidade de Harvard
As
principais recomendações propostas atualmente são:
- Incentivo ao consumo de
grãos integrais, destacando o consumo de arroz integral e massas e pães
integrais, associado ao consumo limitado de grãos refinados (como pão e arroz
branco);
- Escolha por proteínas saudáveis, como peixes, frango, feijões e
oleaginosas, limitando o consumo de carne vermelha. Há a recomendação ainda para
se evitar bacon, frios, embutidos e carnes processadas;
- Incentivo ao
consumo aumentado de frutas de todas as cores;
- Consumir mais vegetais com
maior variedade, ressaltando que batata e batata frita não entra nessa
recomendação;
- Incentivo ao uso de óleos saudáveis, como azeite de oliva e
óleo de canola, tanto para cocção quanto na salada e no uso sobre os alimentos
no momento de consumo, associado ao consumo reduzido de manteiga e à exclusão de
gorduras trans.
- Com relação à ingestão de líquidos, recomenda-se o consumo
de água, chás e café (com pouco ou nenhum açúcar de adição), além de um consumo
limitado de leite e produtos lácteos a 1-2 porções diárias e suco (1 copo
pequeno/dia). Ainda, deve-se evitar o consumo de bebidas açucaradas.
Considerando-se a última recomendação de consumo de leite e
derivados, os pesquisadores destacam que as pesquisas atuais têm mostrado pouco
benefício com o consumo regular de produtos lácteos e, até mesmo, consideráveis
efeitos prejudiciais com o alto consumo. Nesse sentido, o consumo moderado de
leite e/ou produtos lácteos (1-2 porções diárias) é suficiente para crianças,
mas não é essencial para adultos, fato que leva a recomendação de usar a água
como substituto ao leite nas refeições (prática comum entre os indivíduos
americanos). Ainda, os pesquisadores ressaltam que há outros alimentos fontes de
cálcio (como vegetais folhosos verde-escuros e alguns tipos de legumes) que
podem ser considerados para aqueles indivíduos que não consomem leite, quer seja
pela presença de intolerância à lactose, teor aumentado de gordura saturada ou
pela indicação de associação com risco de câncer ovariano8-12 e de
próstata13-21. Ainda, há relatos de associação do alto consumo de leite e risco
de desenvolvimento de doenças como: câncer de mama22-25, diabetes mellitus tipo
126-29, resistência à insulina30-34, síndrome metabólica e obesidade35-43,
síndrome dos ovários policísticos44-48, diabetes mellitus tipo 249-52 e
desordens gastrintestinais53-57.
Com relação às recomendações de cálcio,
sabe-se que os valores atuais (1200mg/dia para adultos) são contestados e
representam quantidades maiores do que aquelas que as pessoas realmente
precisam7. Atualmente, não há evidências consistentes de que consumir mais de
uma porção diária de leite, associada a uma dieta saudável (que fornece cerca de
300mg de cálcio de fontes não lácteas), irá reduzir o risco de fraturas ósseas7.
Sendo assim, considerando a falta de consenso e a existência de associações com
o risco de câncer, é prudente evitar grandes quantidades de produtos lácteos7.
Assim, para indivíduos que não podem ou não querem consumir leite e
produtos lácteos, a Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard recomenda
o consumo de grandes quantidades dos outros alimentos fontes de cálcio,
incluindo vegetais folhosos verde-escuros, feijões e legumes e, quando
necessário, fazer uso de suplementos dietéticos adequados (com quantidades
diárias inferiores a 500mg).
Texto elaborado pelo depto. científico da VP Consultoria Nutricional.
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